Ensaio sobre o silêncio

Levantado do chão, nesta terra do pecado, o homem duplicado ensaia sobre a cegueira. Melhor ver com os sentidos. A caverna está escura. É o óbvio. Toma sua jangada de pedra, rumo à viagem do elefante. Bebe um gole do evangelho, o evangelho segundo Jesus Cristo. Caim, você o vê? Eu não. Cá estou a tecer o memorial do convento, uma espécie de manual de pintura e caligrafia do bem e do mal. Louca. Ávida pelo ensaio sobre a lucidez. Onde como estamos quando? Uma data qualquer, o ano da morte de Ricardo Reis. As intermitências da morte se calaram. Agora é a valer. Todos os nomes te chamam e você não está.

saramago

 

 

 

 

 

 

 

 

 

by Tati Fávaro

Ele não é brasileiro?

Maria é filha de uma amiga. Uma menininha linda, aos 4 anos- quase 5, como diz ela. Bochechas rosadas e o olhar serelepe. Maria está sempre atenta. Assim como as crianças de sua geração, diz coisas de entortar adultos. A mãe trabalha em uma prefeitura e não foi dispensada para assistir ao jogo do Brasil. Na segunda-feira, Maria argumentou:

- Deixa eu falar com ele pra pedir pra você assistir o jogo comigo, mamãe? — Ele, em questão, é o prefeito. Mamãe disse não a Maria, que ficou contrariada mesmo com a explicação de que não poderia falar com o prefeito para fazer seu apelo patriota.

Nesta terça-feira, dia de jogo do Brasil contra Coreia do Norte no mundial da África do Sul, Maria tentou outra vez. Mamãe ligou para Maria ainda pela manhã, como faz sempre para saber como está a filha. O assunto, claro, voltou à pauta:

- Mamãe, você vem assistir ‘o jogo do Brasil com a gente?
- Não posso, meu amor, mamãe vai ter que trabalhar.
- Mamãe, por favoooor… pede pro prefeito deixar você assistir ‘o jogo com a geeeenteeee!
- Ele não deixou, linda.
- Por que, mamãe? Ele não é brasileiro?

brasil

Eh ou naum eh?

Um amigo meu chegou a uma brilhante conclusão, durante uma de nossas conversas virtuais:

- Quem eh a menina? – perguntou ele sobre a autoria de uma frase que eu mandei

E na sequência ele mesmo se tocou:

- Eu peguei uma mania escrota de escrever é com H… tipo eh…. Aí eu pensei que o trabalho de escrever eh é igual a escrever é com acento, porque eu preciso de duas teclas pra escrever é ou eh, ou seja, é ou eh a mesma energia gasta para ambas as maneiras.

- Conclusão genial! – respondi.

- Resumo: estou gastando energia e tô escrevendo é com H.

- Eh que o ser humano gosta de complicar as coisas, naum sabe?

Prazer, Stevia Fávaro

Uma amiga me liga e vamos a um barzinho bater papo enquanto Ronaldo e Adriano se enfrentam. Papo vai, papo vem, o Léo (garçom de quem descobriríamos o nome mais tarde) chega à mesa para tirar o pedido.

- Por favor, você traz duas caipirinhas de maracujá?
- É pra já.
- Uma com pouco açúcar, outra sem.
- Podeixar.

Minutos depois, Léo volta à mesa, sem as caipirinhas ainda e fala pra mim:

- Moça, sabe aquele cara de camisa verde ali naquela mesa?
- Onde? (eu e minha amiga definitivamente estávamos preocupadas em bater papo e só)
- Ali, moça. — aponta o Léo para uma varanda.
- Hum, sei.
- Então, ele pediu seu telefone.
- Pediu? Hum… como vc chama?
- Léo.
- Olha, Léo, desculpa, mas eu não vou dar meu telefone.
- Ah, moça, que custa?

Parei, pensei e resolvi nem explicar pro Léo quanto pode custar uma coisa dessas, coitado… se ele soubesse…

- Léo, e as caipirinhas? – pergunto, desconversando.
- Moça, enquanto você pensa se dá o telefone eu vou buscar.
- Traz gelo e adoçante pra nós?

Minha amiga pergunta se o bar tem “aquele adoçante saudável, da tampinha verde”. Léo desconhece. Como nós conhecemos o dono do lugar, ela propõe de deixarmos o nome do tal adoçante como sugestão. Léo traz as caipirinhas e eu peço papel e caneta. Ele arregala os olhos:

- Mudou de ideia?
- Não, Léo. Não. Não é o meu telefone que vou anotar aqui. É uma sugestão.

stevia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrevo no papelzinho: Stevia. Minha amiga fala pro Léo entregar pro dono do bar, como sugestão, mas o garçom nem está olhando pra nós. E pelo jeito não ouve.

Dois minutos depois o mesmo grupo de amigos da varanda que Léo nos apontou passa pela mesa. Dali a pouco, volta um Léo sorridente:

- Pronto. Ele falou que vai procurar na lista.
- Quem? Procurar na lista o quê?
- O cara. Vai procurar seu telefone na lista.
- (risos) Ah, é?… E como será que ele vai achar meu telefone se não tem nem o meu nome né?
- Tem sim. Entreguei pra ele. Stevia, né?

PS.: Isso que dá tomar caipirinha com adoçante.

By Tati Fávaro

Compreender pelo amor, amar pela compreensão

O poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, escreveu um artigo sobre a música ‘A banda’, de Chico Buarque, em 1966, para o Correio da Manhã. Trecho do texto (publicado no livro Chico Buarque, de Wagner Homem) me chamou (muito) a atenção.  Compartilho, pois.

“… de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando. (…) Meu partido está tomado. (…) Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.”

pureza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

by Tati Fávaro

Teor

O texto abaixo é do Flávio Vieira, enviado quentinho, pós-feriado, para o Rebuliço. Flavuco é um daqueles presentaços que as boas marés trazem. Marca daquelas pra sempre, na vida da gente. Flávio menino, Flávio conteúdo, Flávio cabeça e coração. Flávio amigo, Flávio irmão, Flávio lirismo, prosa, poesia, canção. Flávio tá escrevendo pra caraca, coisa de fazer a gente perder a rima, a métrica. Whatever!

teor

 

 

 

 

 

 

Teor

O sumo da fruta próxima, da palavra grossa, da pessoa frouxa. O extrato borda, a letra acorda, o mar centelha numa dança amorfa. As paredes entram, o ar incensa, o espesso afina. Os lares brotam, os filhos parem, as portas morrem no concreto cru. A porra jorra, concentra gozo, invade o poço onde mora o amor. Impera a tora, meu porto a vela, a velha senhora de ossos à mostra. Invade o cheiro, ampara o óvulo, ausculta a parede do corpo inteiro. Corre o plasma, escoa o líquido, sobe à tona sem ar no peito. Respira. Volta e multiplica o espaço, ganha mais um maço, alastra a gosma sem limite de tempo. Avança os lares, ímpares inspirados em terços perfumados, carne que coincide com a sua carne. Estranho pedaço, trêmula chama de memória justa, venha e não avise. Venha e, de repente, torne invisível esse meu mundo possível.

Flávio Vieira é dono do Whatever Words e também está aqui, no link Blog

A genialidade do simples

Pedro Sabiá é gênio. Tem a capacidade de ver o belo no simples como ninguém. O papo com ele é uma aula de vida, única escola que ele levou a sério. No link abaixo, o texto sobre na nova faceta de Pedrinho Malazarte, como era chamado pela mãe quando criança. Publicado na edição de hoje, do Estadão. Foto de Epitácio Pessoa (Pita mandou bem demais).

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,telas-a-oleo-sim–mas-em-formato-a-tiracolo,530746,0.htm
 

sabia_epitaciopessoa

 

 

 

 

 

 

 

By Tati Fávaro

Lambari? Me liga!

Bizarro. Meu telefone tocou há pouco. O DDD era de um lugar distante, no Centro-Oeste brasileiro.

- Alô.
- Tatiana?
- Sim.
- Tatiana, aqui é o Fulano, é você que cria lambari?

Eu explico: em 2002, quando eu trabalhava no Suplemento Agrícola do Estado de S.Paulo (a minha primeira passagem pelo jornal), escrevi uma reportagem sobre criação de lambaris. Quando fiz meu primeiro porfolio web, botei lá a matéria entre as que selecionei para constar no link Suplemento Agrícola. Se você der uma busca no Google como “criação de lambari” a primeira coisa que você vai encontrar não é o site de um pesqueiro, criadouro ou associação. Não! Você vai encontrar meu portfolio.

google

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por isso, uma vez a cada 40, 60 dias mais ou menos, desde então, meu telefone (que também está no portfolio web) toca. A maioria não notou que eu fui apenas a interlocutora do assunto… e me pergunta se eu crio lambari. Eu já decorei o telefone e o endereço web do Instituto de Pesca de São Paulo, então ajudo o sujeito, que não me custa nada, né? Mas se eu tivesse aberto um criadouro em 2002, eu provavelmente tinha ganhado algum dinheiro. Ou estaria entre as criadoras mais pop (rs).

By Tati Fávaro

Acessibilidade

Se você é deficiente, tá lascado…

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Ninguém me contou. Eu vi.

(Praia das Toninhas, Ubatuba, 7/2/2010)

By Tati Fávaro

O sertão vai virar mar

Sexta-feira quente de janeiro em Atibaia. Apesar da trégua da chuva, as galochas eram necessárias pra andar pela Vila São José. Ali você escolhia: ou era barro ou água. Ratos e crianças se misturam à noite. De dia, a molecada grita ao ver uma cobra. Uma das ruas da área ribeirinha do rio Atibaia só é acessível se você tiver coragem de nadar. Caso contrário, barco.

Triste mesmo é a negligência, os mandos e desmandos dos quais essa gente nem faz ideia, e que abriram espaço pra esse povo morar tão pertinho do rio, sem sonhar com o risco que correm. Sem sonhar à noite, já que não dormem quando chove. Sem sonhar de dia, pois há muito trabalho na tentativa de recuperar o pouco que sobrou depois da última enchente, na virada do ano.

O sistema Cantareira está tão comprometido que se chover muito ou o rio transborda ou a barragem rompe. O sertão vai virar mar (e o interior de SP também).

(…)

trampo

 

 

 

 

 

 

(…)

No meio do calorão, uma história: morador de um dos bairros afetados pela enchente chega pro rapaz jornalista…

- Moço, de que televisão o senhor é? (eles sempre acham que a gente é de televisão)
- Nenhuma. Eu sou da internet.

O senhorzinho olha, mede o repórter dos pés a cabeça. Bota a mão no queixo, aperta os olhos fazendo riscar ainda mais as marcas de expressão do rosto, e diz…

- Ah… sei… o senhor é lá daquele povo do Bill Gates, né?

 

By Tati Fávaro
(fotinho do pessoal da Prefeitura, que me acompanhou até as áreas afetadas)

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