A beleza do feio

Hoje aconteceu algo realmente maluco comigo. Maluco é modo de dizer. A coisa foi mais que isso.

Minha vida tá do avesso desde o fim do ano. Quem está por perto sabe que não tá fácil, mas a cada dia fico maravilhada com o cronômetro do Universo (pra chamar assim o que, na minha cabeça, está personificado num cara sentado tipo “perna de índio”, descalço, de calça jeans e camiseta branca, sobre numa ampulheta gigante, da qual ele faz cair um ou mais grãos de areia conforme sua vontade… o nome desse cara, pra mim, é Deus).

Sei que eu estava num quiosque do estacionamento de um supermercado movimentado da cidade quando, entre a meia dúzia de pessoas que parou a correria pra repor os níveis de cafeína no sangue, apareceu um velhote. Pegou o jornal em cima do balcão e sorriu: “Caramba, que notícia boa, olha! Nossa, como eu tô feliz”.

E eu olhei. Estava lá a notícia sobre o plantio de milhares de árvores, em destaque. Eu estava ali no balcão tinha uns dez minutos, esperando um suco pra viagem (quer coisa mais fastfood do que bebida pra viagem?). Confusa, como ando no último mês A pensar. Os ombros estavam mais pesados, os olhos também. Eu estava de óculos escuros e nem estava sol.

Fiz um exercício de resgate do humor delicado e sorri para o homem, concordando com a cabeça. “Difícil notícia boa hoje em dia, né? A gente tem que ficar feliz mesmo quando vê uma dessa”, disse sem apresentações, para ele nem saber que vivo escrevendo notícias ruins que ele lê.

Ele começou a falar de quando morava no meio do mato, de onde disse ter vindo. Falou da natureza, de como os bichos são mais puros que o homem, de como a cidade é dura com o ser humano. E eu ali, com a cabeça a mil, tentei parar e ouvir. Ignorei o relógio. “Eu faço ioga há 40 anos. Sabe o que aprendi? A olhar a maravilha da vida até no que é difícil e feio.”

Tirei os óculos escuros. Ele continuou.

Falou do pai que morreu com os olhos cheios de lágrimas. Seus olhos encheram também. Falou da mãe, da mulher que ele também perdeu. E falou de Deus. “Ele deu para vocês, mulheres, o dom de atestar sua melhor e pior maravilha: o ser humano”. E a gente, homem, ainda tem inveja de vocês que sentem o outro chutar aí dentro. A a gente, o máximo que pode fazer é botar a orelha na barriga de vocês e tomar um chute”. Eu disse pra ele: “eu tô no time que leva chute na orelha ainda, não tenho filho”.

“Por enquanto, sabia?”, disse ele.

Não, não sabia. Aliás, 2011 chegou tão voraz que saiu atropelando qualquer plano feito furacão. Como se deixasse tudo bagunçado e pronto pra ser recomeçado com o coração. Com a alma. Sensação assim.

“Como é o nome do senhor?”, perguntei. E ele: “Augusto. Meu pai escolheu esse nome por causa do hino”, e cantou o trecho do Hino à Bandeira (”salve símbolo augusto da paz”), onde augusto significa elevado, sublime, respeitável. “Não ficou tão perfeito como ele queria, mas o importante é persistir”, brincou. Eu ri com ele.

Augusto olhou pra mim e perguntou: “E você, como chama?”. Respondi: Tatiana.  Saindo de perto, disse apenas: “Não se acanha, tatibitati, ergue a cabeça, olha pro alto e segue em frente”. E se foi.

pegadas_na_areia

2011

Vamos dançar mais em 2011?
Dançar com a vida?

danca

Ensaio sobre o silêncio

Levantado do chão, nesta terra do pecado, o homem duplicado ensaia sobre a cegueira. Melhor ver com os sentidos. A caverna está escura. É o óbvio. Toma sua jangada de pedra, rumo à viagem do elefante. Bebe um gole do evangelho, o evangelho segundo Jesus Cristo. Caim, você o vê? Eu não. Cá estou a tecer o memorial do convento, uma espécie de manual de pintura e caligrafia do bem e do mal. Louca. Ávida pelo ensaio sobre a lucidez. Onde como estamos quando? Uma data qualquer, o ano da morte de Ricardo Reis. As intermitências da morte se calaram. Agora é a valer. Todos os nomes te chamam e você não está.

saramago

 

 

 

 

 

 

 

 

 

by Tati Fávaro

Ele não é brasileiro?

Maria é filha de uma amiga. Uma menininha linda, aos 4 anos- quase 5, como diz ela. Bochechas rosadas e o olhar serelepe. Maria está sempre atenta. Assim como as crianças de sua geração, diz coisas de entortar adultos. A mãe trabalha em uma prefeitura e não foi dispensada para assistir ao jogo do Brasil. Na segunda-feira, Maria argumentou:

- Deixa eu falar com ele pra pedir pra você assistir o jogo comigo, mamãe? — Ele, em questão, é o prefeito. Mamãe disse não a Maria, que ficou contrariada mesmo com a explicação de que não poderia falar com o prefeito para fazer seu apelo patriota.

Nesta terça-feira, dia de jogo do Brasil contra Coreia do Norte no mundial da África do Sul, Maria tentou outra vez. Mamãe ligou para Maria ainda pela manhã, como faz sempre para saber como está a filha. O assunto, claro, voltou à pauta:

- Mamãe, você vem assistir ‘o jogo do Brasil com a gente?
- Não posso, meu amor, mamãe vai ter que trabalhar.
- Mamãe, por favoooor… pede pro prefeito deixar você assistir ‘o jogo com a geeeenteeee!
- Ele não deixou, linda.
- Por que, mamãe? Ele não é brasileiro?

brasil

Eh ou naum eh?

Um amigo meu chegou a uma brilhante conclusão, durante uma de nossas conversas virtuais:

- Quem eh a menina? – perguntou ele sobre a autoria de uma frase que eu mandei

E na sequência ele mesmo se tocou:

- Eu peguei uma mania escrota de escrever é com H… tipo eh…. Aí eu pensei que o trabalho de escrever eh é igual a escrever é com acento, porque eu preciso de duas teclas pra escrever é ou eh, ou seja, é ou eh a mesma energia gasta para ambas as maneiras.

- Conclusão genial! – respondi.

- Resumo: estou gastando energia e tô escrevendo é com H.

- Eh que o ser humano gosta de complicar as coisas, naum sabe?

Prazer, Stevia Fávaro

Uma amiga me liga e vamos a um barzinho bater papo enquanto Ronaldo e Adriano se enfrentam. Papo vai, papo vem, o Léo (garçom de quem descobriríamos o nome mais tarde) chega à mesa para tirar o pedido.

- Por favor, você traz duas caipirinhas de maracujá?
- É pra já.
- Uma com pouco açúcar, outra sem.
- Podeixar.

Minutos depois, Léo volta à mesa, sem as caipirinhas ainda e fala pra mim:

- Moça, sabe aquele cara de camisa verde ali naquela mesa?
- Onde? (eu e minha amiga definitivamente estávamos preocupadas em bater papo e só)
- Ali, moça. — aponta o Léo para uma varanda.
- Hum, sei.
- Então, ele pediu seu telefone.
- Pediu? Hum… como vc chama?
- Léo.
- Olha, Léo, desculpa, mas eu não vou dar meu telefone.
- Ah, moça, que custa?

Parei, pensei e resolvi nem explicar pro Léo quanto pode custar uma coisa dessas, coitado… se ele soubesse…

- Léo, e as caipirinhas? – pergunto, desconversando.
- Moça, enquanto você pensa se dá o telefone eu vou buscar.
- Traz gelo e adoçante pra nós?

Minha amiga pergunta se o bar tem “aquele adoçante saudável, da tampinha verde”. Léo desconhece. Como nós conhecemos o dono do lugar, ela propõe de deixarmos o nome do tal adoçante como sugestão. Léo traz as caipirinhas e eu peço papel e caneta. Ele arregala os olhos:

- Mudou de ideia?
- Não, Léo. Não. Não é o meu telefone que vou anotar aqui. É uma sugestão.

stevia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrevo no papelzinho: Stevia. Minha amiga fala pro Léo entregar pro dono do bar, como sugestão, mas o garçom nem está olhando pra nós. E pelo jeito não ouve.

Dois minutos depois o mesmo grupo de amigos da varanda que Léo nos apontou passa pela mesa. Dali a pouco, volta um Léo sorridente:

- Pronto. Ele falou que vai procurar na lista.
- Quem? Procurar na lista o quê?
- O cara. Vai procurar seu telefone na lista.
- (risos) Ah, é?… E como será que ele vai achar meu telefone se não tem nem o meu nome né?
- Tem sim. Entreguei pra ele. Stevia, né?

PS.: Isso que dá tomar caipirinha com adoçante.

By Tati Fávaro

Compreender pelo amor, amar pela compreensão

O poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, escreveu um artigo sobre a música ‘A banda’, de Chico Buarque, em 1966, para o Correio da Manhã. Trecho do texto (publicado no livro Chico Buarque, de Wagner Homem) me chamou (muito) a atenção.  Compartilho, pois.

“… de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando. (…) Meu partido está tomado. (…) Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.”

pureza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

by Tati Fávaro

Teor

O texto abaixo é do Flávio Vieira, enviado quentinho, pós-feriado, para o Rebuliço. Flavuco é um daqueles presentaços que as boas marés trazem. Marca daquelas pra sempre, na vida da gente. Flávio menino, Flávio conteúdo, Flávio cabeça e coração. Flávio amigo, Flávio irmão, Flávio lirismo, prosa, poesia, canção. Flávio tá escrevendo pra caraca, coisa de fazer a gente perder a rima, a métrica. Whatever!

teor

 

 

 

 

 

 

Teor

O sumo da fruta próxima, da palavra grossa, da pessoa frouxa. O extrato borda, a letra acorda, o mar centelha numa dança amorfa. As paredes entram, o ar incensa, o espesso afina. Os lares brotam, os filhos parem, as portas morrem no concreto cru. A porra jorra, concentra gozo, invade o poço onde mora o amor. Impera a tora, meu porto a vela, a velha senhora de ossos à mostra. Invade o cheiro, ampara o óvulo, ausculta a parede do corpo inteiro. Corre o plasma, escoa o líquido, sobe à tona sem ar no peito. Respira. Volta e multiplica o espaço, ganha mais um maço, alastra a gosma sem limite de tempo. Avança os lares, ímpares inspirados em terços perfumados, carne que coincide com a sua carne. Estranho pedaço, trêmula chama de memória justa, venha e não avise. Venha e, de repente, torne invisível esse meu mundo possível.

Flávio Vieira é dono do Whatever Words e também está aqui, no link Blog

A genialidade do simples

Pedro Sabiá é gênio. Tem a capacidade de ver o belo no simples como ninguém. O papo com ele é uma aula de vida, única escola que ele levou a sério. No link abaixo, o texto sobre na nova faceta de Pedrinho Malazarte, como era chamado pela mãe quando criança. Publicado na edição de hoje, do Estadão. Foto de Epitácio Pessoa (Pita mandou bem demais).

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,telas-a-oleo-sim–mas-em-formato-a-tiracolo,530746,0.htm
 

sabia_epitaciopessoa

 

 

 

 

 

 

 

By Tati Fávaro

Lambari? Me liga!

Bizarro. Meu telefone tocou há pouco. O DDD era de um lugar distante, no Centro-Oeste brasileiro.

- Alô.
- Tatiana?
- Sim.
- Tatiana, aqui é o Fulano, é você que cria lambari?

Eu explico: em 2002, quando eu trabalhava no Suplemento Agrícola do Estado de S.Paulo (a minha primeira passagem pelo jornal), escrevi uma reportagem sobre criação de lambaris. Quando fiz meu primeiro porfolio web, botei lá a matéria entre as que selecionei para constar no link Suplemento Agrícola. Se você der uma busca no Google como “criação de lambari” a primeira coisa que você vai encontrar não é o site de um pesqueiro, criadouro ou associação. Não! Você vai encontrar meu portfolio.

google

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por isso, uma vez a cada 40, 60 dias mais ou menos, desde então, meu telefone (que também está no portfolio web) toca. A maioria não notou que eu fui apenas a interlocutora do assunto… e me pergunta se eu crio lambari. Eu já decorei o telefone e o endereço web do Instituto de Pesca de São Paulo, então ajudo o sujeito, que não me custa nada, né? Mas se eu tivesse aberto um criadouro em 2002, eu provavelmente tinha ganhado algum dinheiro. Ou estaria entre as criadoras mais pop (rs).

By Tati Fávaro

←Older